bem vindo ao espaço sideral! aqui não existe tempo. aqui não existe espaço. encontramo-nos no vazio

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Esta sombra não é minha




Começo por dizer: "esta sombra não é minha!" 

As águas agitam-se, revoltam-se, elevam-se 
acima das minhas montanhas; trazem à superfície 
fragmentos arcaicos, obsoletos: de remos exaustos,
de barcos que nunca chegaram; de outras lutas, 
tantas e tão remotas... 
E eu volto a dizer: "esta sombra não é minha!" 
Tudo emerge esquivo, obstinado, opaco, arrojado.

Volto as costas aos espelhos, evito-os, 
acendo uma luz ilusória.
"esta sombra não é minha!".

Mas os caminhos estão, inevitavelmente, ladeados de espelhos. 
E agora eu percorro-os, sem medo de contemplar as sombras e
reconhecer nelas a minha própria sombra.
A montanha desce ao nível das águas, mergulha nelas e fica em paz.


* helena isabel

"A Máquina do Tempo" - H.G. Wells



Ando a viajar em "A Máquina do Tempo", de H.Q. Wells, o que quer dizer que estou em estado de deslumbre. "Não existe qualquer diferença entre o tempo e qualquer uma das outras 3 dimensões do espaço, na excepção de que a nossa consciência se desloca ao longo dele". Aqui fica a sugestão para eventuais viajantes. 


Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.


* Vladimir Maiakóvski
Estar entre o tempo e o fora-do-tempo;
um pé aqui, um pé lá e, nos entretantos, a vertigem.
Perceber a linha invisível que une os dois pontos; 
aprender a caminhar nela, como na infância
aprendemos a caminhar na linha de cá.
A quem não reconhecer o equilibrista, 
parecer-lhe-à que este é louco ou pior.
Quando estou na linha entre o tempo e o fora-do tempo,
os espectadores são secundários,
eu cairei no momento em que esperar que me critiquem
e voltarei a cair no momento em que esperar que me aplaudam.


helena isabel
O silêncio dos Homens está impregnado de medo, o chão treme e devora as
certezas, os prazeres, a liberdade. alguém alterou a rota, o rumo dos simples. Para onde caminhar agora? Onde fica o norte? Como contornar as fendas?

Ao virar de cada esquina, espreitam figuras sombrias, de espadas erguidas e afiadas. Esperam que o Homem simples passe por elas para lhe roubarem o coração - um pedaço de cada vez - até o peito ser o deserto e as fontes a jorrarem água cristalina não passarem de uma miragem, um sonho longínquo.

Tudo isto ocorre numa certa dimensão do tempo. Um pouco mais acima, os mesmos homens celebram o amor.


helena isabel


As manhãs translúcidas conquistam-se
libertando o sol das cortinas.
É uma tarefa lenta e progressiva, 
às vezes dolorosa.
O sol estende os braços até ao limite
e reclama o que é seu.
As cortinas resistem, densas, ilusórias.
Até o sol as abraçar, embalando-as como a 
uma criança a quem nasce um dente.


helena isabel

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A minha vida tem um caminho
que é sou teu,
que só tu sabes percorrer.

Seguramente,
este ainda é o nosso tempo.
Mesmo que os anos passem,
os anos não nos vencem.

Há sempre um frémito que
persiste,
um gesto de amor subtil que
irrompe como uma manhã fresca
no quotidiano dos hábitos.

Por isso,
aprenderemos a cuidar dele
com o mesmo desvelo e a mesma
serena intensidade
do beijo que de manhã te dou
e que te interrompe o sono
e que nele de novo mergulhas
sonhando com uma eternidade
só nossa


5/2/2012

Jorge Saraiva