bem vindo ao espaço sideral! aqui não existe tempo. aqui não existe espaço. encontramo-nos no vazio

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

se eu pudesse,
tirava os panos que te cobrem a boca,
e deixava que corressem uma a uma,
todas as palavras de amor que te
imagino nos olhos.

mas não posso...
e por isso resigno-me
a um sofrimento pendular
quanto profundo

jorge saraiva
Das horas tenho apenas estas:
as que passam depressa mas não se evaporam

Todas as outras existem ao compasso dos segundos
e morrem


helena isabel
Subi os degraus até à tua casa
com o silêncio a lembrar-me palavras

(neste caso, as palavras são um vinho macio
que fervilha nas veias;

 o meu sangue, o sabor de
memórias doces e perfumadas)

Agora, não há lugar para a escuridão,
todos os sóis iluminam as escadarias

e a noite onde depositava a minha solidão
sugere-me tonalidades e fragrâncias que nunca me visitaram

a natureza é sublime quando olho para o nosso jardim
e vejo os malmequeres a crescerem e a sorrirem

Os malmequeres já não se desfazem nas minhas mãos;
já nada é como antes.


 helena isabel

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Tenho visto demasiado ódio para querer odiar - Martin Luther King

Os convencidos da vida


Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear. 

Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força. 

Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. 

Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil. 

Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro. 

Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi. 


Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

E câmeras de vigilância

Eu Sou do Tamanho do que Vejo
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... 
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo 

E não, do tamanho da minha altura... 
Nas cidades a vida é mais pequena 
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. 

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, 
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, 
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, 
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver. 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII" 
Heterónimo de Fernando Pessoa