segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Igual-desigual
Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou [coisa.
Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
ímpar.
Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida
domingo, 8 de janeiro de 2012
Os justos
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Quando
nos amamos
rodeamos
as palavras com um silêncio
tão
puro
que
só a ternura pode sugerir e
antever.
Por
isso, resistimos ao frio dos gestos
ásperos
e
às manhas ventosas que trocam os
beijos
pela
inconsequência dos actos
sem
nome nem chão.
E
assim estaremos
na solidez firme de uma rocha
convicta,
que
por ser tão leve,
só
os nossos pés descalços a
pisam.
Assim
sabemos que
não
nos podemos,
nem
queremos
magoar.
Jorge
25/12/11
* Grandeza do Homem *
Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"
Os silêncios são belos com intervalos de palavras:
breves, singulares, singelas. como pinheiros que
se elevam, suavemente, das raízes ao topo das
montanhas. Sim, os silêncios são belos quando
viajam intemporais em pura contemplação;
quando as mãos descansam numa chávena de café,
e se esquecem de a levar aos lábios. Sim, os silêncios
são belos quando são apenas silêncio e o calor dos
corpos roça a pele e diz tudo o que há para dizer.
Dos silêncios, recordo-me dos sorrisos que cresciam
da tua boca e adormeciam nos meus olhos em todas
as formas de amor. E, sem palavras, tu deixavas
escrito na minha alma : "Sou eu que cheguei para
te resgatar".
helena isabel
helena isabel
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