bem vindo ao espaço sideral! aqui não existe tempo. aqui não existe espaço. encontramo-nos no vazio

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

* Grandeza do Homem *


Somos a grande ilha do silêncio de deus 
Chovam as estações soprem os ventos 
jamais hão-de passar das margens 
Caia mesmo uma bota cardada 
no grande reduto de deus e não conseguirá 
desvanecer a primitiva pegada 
É esta a grande humildade a pequena 
e pobre grandeza do homem 

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

David Sylvian - A Certain Slant Of Light

Os silêncios são belos com intervalos de palavras: 
breves, singulares, singelas. como pinheiros que 
se elevam, suavemente, das raízes ao topo das 
montanhas. Sim, os silêncios são belos quando 
viajam intemporais em pura contemplação; 
quando as mãos descansam numa chávena de café,
e se esquecem de a levar aos lábios. Sim, os silêncios 
são belos quando são apenas silêncio e o calor dos 
corpos roça a pele e diz tudo o que há para dizer.

Dos silêncios, recordo-me dos sorrisos que cresciam
da tua boca e adormeciam nos meus olhos em todas 
as formas de amor. E, sem palavras, tu deixavas 
escrito na minha alma : "Sou eu que cheguei para 
te resgatar".

helena isabel

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tim Buckley - Song to the Siren

Revolução


Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta 

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

Intemporal

A festa do silêncio


Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

A mais bela canção de sempre


Sonhei com uma alma outra
De um modo outro vestida:
Ardia na fuga
Da timidez à esperança,
Espirituosa e límpida
Como o fogo habita a terra,
Sobre a mesa pouso lilases
Para que lembrada seja.
Corre, criança, não pares
Pela pobre Eurídice,
Rola o arco e a gancheta
No mundo roda,
Até subires uma oitava
No tom alegre, e calma
Porque a cada passo a terra
Faz soar guizos nos teus ouvidos.

Arseni TARKOVSKI

A forma justa


Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Separa-nos uma folha fina de papel
numa das faces, tu sorris, desafias-me
a desafiar-te: a perdermo-nos nos campos
verdes, a corrermos para o sonho, a
lançarmo-nos para dentro dele e 
a deixarmos partir tudo o que ainda não é
feliz

As estrelas crescem para os nossos olhos
o que resta do céu é uma tela de espirais
resplandecentes, de todas as cores que
inventámos


helena isabel

domingo, 23 de outubro de 2011

Levo os lábios ao amor em ferida 
e a saliva sara o tempo em que
quase morremos um para o outro


helena isabel

terça-feira, 28 de dezembro de 2010


Por vezes sentimo-nos tão mais pequenos 
que somos esmagados por formigas,
construímos edifícios desproporcionados 
à nossa dimensão e vivemos neles
como num espaço indefinido,
solitários entre a sala e o quarto, a mobília 
e objectos infinitos.

Por vezes somos tão minúsculos, 
que nos esquecemos que somos mais que isso


helena isabel

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Inocentes desvios

Sabe a orvalho acordar nos teus braços
com o corpo inteiro confundido em ti

O teu corpo diz-me: Amo-te desde sempre
e para todo o sempre

Eu penso nos inocentes desvios
e na leveza das manhãs claras

Por isso, começo a escrever o Domingo
com um beijo silencioso nas tuas mãos

Que têm dedos quase do tamanho
dos meus


helena isabel
Enquanto for a tua sombra a caminhar a meu lado,
eu serei sombra e todos os meus passos 
deixarão sementes na terra

A seu tempo, crescerão rosas brancas no caminho 
e nascentes de água fresca e clara (dos 
teus pés, raízes profundas e silenciosas)

Chegará a manhã em que sairás da sombra
e verás rosas onde há pouco era deserto e frio

Eu depositarei um beijo sereno nos teus lábios
e viajarei até ao sol, levando o teu sorriso feliz
pelo regresso ao amor


helena isabel

Velvet Underground - I'll Be Your Mirror

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Chamo pelo teu nome
para lá do teu nome
Um dia disseste que 
gostavas de tirar os panos
da minha boca
Um dia disseste
que eu era o mundo
que querias habitar
e que atravessavas
todos os sinais vermelhos
para vires ao meu encontro
Não precisas vir
fica onde tu quiseres 
dentro da casa
Eu atravesso as paredes
e fico apenas a contemplar


helena isabel
Pensei-te a acordares de um sono profundo e a transgredires todas as regras: as tuas e as dos outros.


helena isabel

This Mortal Coil - Song to the Siren "Cocteau Twins"

Dá-me a tua linha
dá-ma, parando o tempo
e demorando-te
(na minha linha)

Dá-me o teu arrepio
dá-me, de fora para dentro
parando o tempo
e demorando-te
(no meu arrepio)

Na tua linha
no teu (nosso arrepio)
nasço e morro
vezes sem conta

Até sermos uma só carne
e um só grito


helena isabel